Escrito por J.Yanni
Pode parecer paradoxal: mas o homem é um pote?
Até certo ponto os potes assumiam a imagem de quem os fez. A forma protuberante do corpo do pote, o estreitamento do pescoço, o lábio, a curva do ombro são certamente projeções antropomórficas. Isso não quer dizer que todos sejam efígies, contudo os primeiros potes pareciam conter algo inerentemente orgânico. O sentimento subjetivo do corpo, como uma coisa oca, onde o alimento é colocado, onde o feto cresce, é universal. Essa analogia é muito clara no livro "Pottery Form" de Daniel Rhodes onde ele aborda com muita clareza o simbolismo e a imagística com uma quase sublime qualidade de mistério sedimentado.
Fazer cerâmica faz parte da sociedade há milhares de anos; desde a mais remota antigüidade familiar. Sempre associada a uma função era praticada por quase todas as tribos conhecidas em todo o mundo.
Todas as atividades diárias e mundanas eram ligadas aos fundamentos da vida. A cerâmica era o lugar onde se acendia o fogo, a cerâmica era o lar, a cerâmica era a água fresca, a panela para o cozimento, o reservatório para a armazenagem de alimentos; enfim, uma forma de segurança, bem estar, proteção como conforto e sobrevivência, até o sepultamento.
O pote contido, útil, modesto e despretensioso, tomou-se como um arquétipo; representando além do seu significado imediato (como jarro, vasilha), a ampla significação das funções essenciais da vida do dia a dia: comer, lavar, preservar, sepultar. A vasilha de barro tomou-se tão identificada com a existência do homem que o mundo sem ela se tornaria inimaginável. Suas formas parecem ter se desenvolvido a partir das camadas mais profundas da consciência humana.
É surpreendente a identidade entre a cerâmica feita em lugares e épocas extremamente distantes. Suas formas possuem uma qualidade universal. Percebe-se não haver uma busca de qualidade estética; assim, uma xícara feita com alça no Peru, no período pré-colombiano, não difere essencialmente de uma xícara feita na China.
O resultado da produção não surgia da incerteza ou da ansiedade, era natural como apanhar lenha ou plantar sementes, formando uma espécie de consciência de grupo.
Dos dedos descontraídos de um ceramista nasceu a expressão de um inconsciente coletivo, de uma destilação tribal na forma apropriada de uma vasilha: formas que evoluíram vagarosamente uma vez estabelecidas como úteis e aceitáveis.
À presença de um pote sente-se uma certa aura; o que o torna místico como se a sua volta existisse energia. O pote não exige paredes ou pedestais; é livre em seu ambiente e movível de acordo com a sua função, baseado em suas propostas universais.
"É a estrutura purificada da terra"
O tratado de Rodhes lembra também: "A atividade cerâmica pode ser pensada não somente como resultado prático da confecção de vasilhas, mas como resultado da nossa ânsia de dar formas. Pela modelagem da argila, vamos encontrar nossa própria forma".
Dar forma pelos nossos dedos, pode paralelamente complementar, significar e aprovar mudanças na evolução da nossa própria consciência.
A mecanização, a industrialização, a divisão do trabalho destruíram a oportunidade do homem de atuar artesanalmente.
Grandes ganhos trazendo as grandes perdas.
Livros consultados: Pottery Porm de D. Rhodes, La Cerámica Primitiva de Jorge F. Chitti
ALARP - Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto